sexta-feira, 8 de junho de 2018

Sair

Às vezes dá uma vontade de sair, de pegar nas peças de roupa mais confortáveis que tenho e sair por aí. Sem destino. Numa busca de paz que não se encontra aqui. Aqui no sítio de sempre. Com as pessoas de sempre. Às vezes, só às vezes apetece fechar a porta e não voltar a abrir. Lançar as chaves fora, com o dramatismo encenado de um filme onde se prevê o final desde os primeiro segundo - voltar a casa e serem todos felizes. Mas apetece sair sem saber se volto.

É sentir que o mundo é demasiado pequeno para mim. Este mundo, estas pessoas, as mesmas caras, os mesmos problemas. Apetece ir. Deixar tudo para trás e fazer da frustração uma piada fácil como se se tratasse de um acontecimento ridículo da adolescência que agora nos envergonha. Apetece dar menos importância aos laços. Os laços prendem-nos, relembram-nos o que nos dão e o que devemos retribuir. Os laços não nos deixam ir. Como seria viver sem esses laços? Viver num egoísmo enlaçado nos nossos objectivos e sonhos? Viver por mim e para mim. Não olhar para trás, para os lados e seguir em frente, num caminho traçado por mim sem consequências antecipadas e medos desnecessários. Isto seria eu sendo outra pessoa. Não conseguiria sair assim. Os meus laços sou eu. Mas que às vezes dá uma vontade de sair e não voltar dá! Esta vida confusa e inconstante cansa.

Talvez o meu lugar não seja aqui. Penso mesmo que não. E cada vez mais, cresce a vontade de ir para outro lugar, de acabar este objectivo e procurar morada noutra cidade. As saudades que eu tenho de viver noutra cidade....

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Questão

Estou numa fase de questionamento. Há quem diga que isso faz parte da minha personalidade, tipo um traço que existe e dificilmente será mudado. Acho que no fundo não deixa de ser verdade. E isso assusta-me, na medida em que se passar a vida a questionar nunca aproveitarei a vida só porque sim, serei uma eterna insatisfeita.

Tenho medo de não ser feliz feliz feliz ou nunca o vir a ser. Dizem também que ninguém o é por completo.
Acho que às vezes precisava de alguém do meu lado que me entendesse, que compreendesse esta insatisfação, este estar só no meio da multidão, mas ao mesmo tempo uma ânsia de viver, conhecer, rir e dizer baboseiras. Não é impossível ser-se assim. Aqui estou eu, prova viva disso.
Alguns pensam que preciso não de alguém que me compreenda ou ate partilhe deste meu pensamento, mas de alguém que seja o oposto. Não, não pode ser. Porque eu sendo extremamente teimosa, se alguém não compreender ou contrariar o que penso, sinto ou faço, há duas hipóteses : ou a pessoa vale a pena e entramos em colisão e eu discuto até me faltar forças (argumentos não), solto as espadas da teimosia e a força da razão (que acho que tenho) e lanço-me na batalha de opiniões, onde posso perder ou sair vencedora, mas se perder foi com alguém que valia a pena; ou então se a pessoa não tiver a importância para opinar, ou importância na minha vida para tal, ouço, ignoro ou digo uma piada e sigo em frente, adeusinho e até qualquer dia. Preciso que me compreendam, que mesmo que não concordem validem o que penso, e discutam comigo. E eu, sendo teimosa, vou tentar dar a volta e pode ate parecer que não fico a pensar na opinião, mas fico. Preciso de alguém compreensivo e tão teimoso como eu, mas que na sua teimosia encontre emoção para me dar ouvidos e racionalidade para argumentar.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Medo

Tenho medo de querer. Mais medo de querer e não ser. Almejo mais para mim, do que acho que vá conseguir. Porque quero tanto...
Tenho medo.
Tenho medo que as minhas ânsias me atraiçoem.
Medo de perder a minha esssência. Tenho medo de ver os meus sonhos submergirem nas imposições da sociedade.
Tenho medo de estar errada.Odeio estar errada!! Tenho até medo de não saber o que quero. Medo de querer o mesmo que o comum dos mortais. Não tenho medo de ser comum. Tenho medo da mortalidade, da enfermidade que é viver, da fugacidade do tempo.
Tenho medo dos passos. Passos certos na incerteza do querer. Passos a medo. Passos confiantes mas receosos das consequências.
Tenho medo.
Tenho medo de me acomodar a uma vida que não idealizei. Tenho medo de quebrar laços. Deslaçar e enlaçar, assusta-me.
Tenho medo de ser imatura por não aceitar menos do que sou e do que idealizo. E, ainda assim, ter medo de mudar e não acomodar.
Tenho tanto medo de olhar para trás, um dia...
Tenho medo das certezas. Porque aprendi, a medo, que nada é para sempre!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Ser

Sou. Sou de saudades quando o tempo passa. E quando parece não passar. Sou de nostalgias esperadas e inesperadas. Sou de não querer perder quem tenho. Sou de querer manter quem gosto bem por perto. Sou de não gostar de perder pessoas. Sou complicada, mas com um pensamento tão descomplicado e rudimentar como - se as pessoas não causaram danos não têm que ir embora. Infantil de tão primário, sei-o bem.
Sou de pensar. De repensar. Sou de me redefinir e tentar enquadrar o meu eu neste louco mundo. Ou de tentar enquadrar este meu louco eu neste mundo. Sou de ver complexidade onde nem sempre a há. Sou de não querer sair de onde fui feliz. Se pudesse dividia-me em 2 ou 3 pedaços de gente e vivia nas cidades tão cheias de mim e eu delas, onde fui feliz, onde estão as minhas pessoas. Mas sou de pensar e defender que o que somos temos que o ser por completo, por inteiro. Por isso o dito anteriormente não faz grande sentido. Porque sou uma inteira complicada. Sou-o inteiramente na maioria dos meus dias. Sou de sonhos. Sonhos que me atropelam e me fazem duvidar da razão. Principalmente da razão desta sociedade onde me tento enquadrar. Mas, ainda assim, recuso a deixar de ser eu por inteiro. Dizem que não mudo. Digo disparates, digo o que me vem à cabeça sem pensar nas consequências (infantil ou ingénuo, por vezes), esqueço-me que as pessoas podem ver maldade no que digo, sei-o depois de dizer, porque observo. Observo as entre-linhas, as entre entre linhas. Por isso mesmo dizem que não mudo também. Pareço arrogante. Sou arrogante e irónica. Todos os dias. Sou, porque ás vezes parece tão óbvio as minhas verdades que duvido que a complicada seja eu. Sou de ter orgulho no que sou, mesmo que o ser traga dissabores. Sou de verdades. Sou de ficar possessa, indignada, completamente furiosa com inverdades, meias verdades ou algo que não seja a simples e cruel verdade. Sou de ouvir "és tão má", quando digo o que penso, e sou de pensar logo a seguir e dizer "pois, mas não discordas de mim, eu apenas o disse". As pessoas na maioria das vezes acham piada às minhas verdades, opiniões e argumentos. Ou melhor, à minha ironia. Mesmo a dizerem a rir que estou a ser má. E, aí eu discuto. Sou de discutir. De discutir ideias e ideais, opiniões e não opiniões. Irritam-me não opiniões. Aquelas pessoas que são sempre as certinhas, imaculadas e bem educadas porque não partem um prato, porque engolem o que pensam mesmo quando entre o dizer e o não dizer, o dizer poderia servir para as defender. Não sou de achar que se deva confundir boa-educação com passividade ou sadismo, nem de achar que se deva confundir sinceridade com má educação. Tento não ser mal educada, mas pareço agressiva e arrogante. Já o disse. Mas o que não sabem... é que sou de inseguranças. Sou de duvidar de mim, do que valho e mereço. Não sou de o mostrar. A ninguém. Só o sabe quem me observa, sabendo que por trás das minhas verdades e respostas, está alguém que pensa saber a verdade sobre si, e a isto se junta a característica de ser complicada, o que conjugado culmina em duvidar do que é. Isto sou eu a racionalizar o que sou. Sou de racionalizar. Sou de complicar. Sou de pessoas. Sou de duvidar de muita coisa, mas acreditar que as pessoas deviam ficar. É... verdade verdade é que sou de saudades.

terça-feira, 27 de março de 2018

Avós

Hoje dois dos meus avós fazem anos. O pai da minha mãe e a senhora que colocou o meu pai no mundo. Esta forma de descrever, não foi despropositada. Tal como não é nada do que vou escrevendo.

Hoje pensei no papel de avós, pensei no que seria ter avós de verdade. Porque para mim os papéis que se assume na vida de uma pessoa nada tem a ver com o sangue. Tem a ver com trocas reciprocas. Trocas genuínas. Eu não tive os pais dos meus pais a assumirem o seu papel de avós. Não tenho memória do colo, nem do cheiro dos avós (mesmo da única que está viva). Não me lembro da ansiedade de visitar a casa deles. Nem do cheiro das comidas típicas que os avós fazem. Não me lembro de sentir que os avós gostavam de mim, com aquela ternura de avós. Aquela que reconheço na minha avó do coração. O único momento que me recordo que poderia gostar de mim, era o meu avô paterno, tinha traços de avô, cabelos todos brancos e tentava pegar em mim ao colo. Morreu quando eu tinha 5 anos, e lembro-me de apenas uma vez ele pegar em mim e eu recusar porque tinha medo dele (tinha problemas de saúde relacionados com o fígado e apesar dos olhos azuis lindos, tinha um tom amarelado, e eu dizia que parecia um monstro. sim, sem maldade alguma).

Eu tenho uma tia, avó no coração, que cuidou de mim quando a minha mãe trabalhava. Ensinou-me a rezar, comprava-me sugos à quinta-feira, faz o melhor leite-creme do mundo e não há frango assado em forno a lenha como o dela. Ia para casa dela antes e depois da escola. Fazia-me as melhores torradas e café do mundo, para pequeno almoço. Comprava-me os meus iogurtes preferidos e mandava-me escolher um bolo quando chegava a carrinha do padeiro. Emprestava-me os xailes dela para eu ver televisão quentinha, ensinava-me a aquecer as mãos no fogão a lenha. Secava-me a roupa quando eu chegava encharcada da escola, ralhava-me quando demorava e dizia-me que não havia amigas, talvez fruto das amargas aprendizagens da vida. Soubesse ela o quão tornou a minha tão doce. Dizia-me e ainda diz que não posso ser tão resmungona e que Deus nos ensina a perdoar. Levava-me à missa todos os sábados, e ela gostava da minha companhia porque toda gente dizia que me portava tão bem. E eu ia ter a casa dela todos os sábados voluntariamente. Não porque adorava ir à igreja, não porque era extremamente crente, sei-o hoje que era pela companhia, pelo ritual. Quando a minha mãe trabalhava no turno da noite, eu ficava em casa dela e dormíamos juntas, eu chorava pela minha mãe e lembro-me dela pegar em mim e levar-me à janela e dizer-me "vês? olha o céu está noite e está estrelado, amanhã quando for dia a mamã vem te buscar. quando acordares", e isto acalmou-me duma forma quase mágica e depois pedi-lhe que se virasse para mim, e que rezasse comigo e então fazíamos o mesmo de sempre - ela dizia algumas palavras e eu repetia, pedíamos sempre saúdinha (como ela diz) para os papás e para os manos. É isto ser avó, nunca pedir para ela, e ter tanto para dar aos outros. E continuar a dar raspanetes ao longo da minha vida "porque não me ensinou a ser assim", como diz tantas vezes.

Esta minha avó de coração é irmã da minha avó de sangue. Obrigou-me em pequenina a cumprimenta-la, e no alto dos meus 6/7 anos eu recusava-me, escondi-me e dizia-lhe então "essa senhora não é minha avó, ela pariu o meu pai e nunca quis saber dele", não funcionou. Ainda aleguei com a sabedoria popular "não se diz que parir é dor e criar é amor?", continuou sem funcionar porque sabendo ela que eu tinha razão, acredita que temos que ser educados e mais do que tudo acredita que temos que perdoar. Cumprimentei, respondi às perguntas chorosas de "como estão os manos?" e dei meia volta logo que me foi possível. Não percebi, e hoje passados 19 anos continuo sem perceber o porquê de uma mãe abandonar um filho e depois chorar a fazer perguntas desnecessárias. E sim, poderia ter sido diferente porque teve mais 7 filhos e só o meu pai é que foi abandonado. Hoje percebo o raio (trovão eminente) da minha personalidade com 7 anos, não me coíbo de mostrar gratidão e de mostrar de quem gosto, mas também não me inibo de mostrar que não gosto e argumentar para. E ainda que a minha tia não concorde, só lamento. Mas ela sabe que tento por em prática tudo (quase tudo, vá) o que ensinou.

Sei-o hoje e sei desde muito cedo que os papéis que assumimos na vida de alguém, e a sua importância não tem a ver com parentesco, tem a ver com o que fazemos por alguém. Tem a ver com o querer ver alguém feliz e querer genuinamente contribuir para isso. É tão simples. Trata-se de laços. Somente laços. Aprendi ao longo da vida, pelas histórias que ouvi e porque eu idealizava que os meus avós fossem velhinhos queridos para mim como o que lia nas histórias ou via nos filmes.

E hoje, não quis parabenizar ninguém. Mas senti-me imensamente grata pela minha tia ter assumido o papel de avó, que cuida com o coração.
Escrevo, para não esquecer.
Que não falhe na minha memória este amor em forma de cuidar.
Um dia... saberei perdoar como ela!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O último suspiro?

O amor é a própria analogia do coração. Enquanto tudo está saudável, somos novos, o coração bate num compasso alinhado e correto. As saturações, tensões estão dentro dos padrões. Tudo perfeito. A vida avança, o coração não enfraquece, mas ou as tensões são altas, ou é recomendada a prática de exercicio, o corte do sal e ter atenção a toda a alimentação. E quando um coração com a idade para? reanima-se! e volta-se a reanimar. e ele não morrendo continuando a bater reconhece-se a existência de arritmias. Até ao dia em que não havendo reanimação possível cede e depois de alguns anos a definhar, morre. Não há sangue para bombear, não há corpo para nutrir e oxigenar.
E o amor? E as relações? Reanima-se, volta-se reanimar. faz-se o que é recomendado - os exercícios, o esforço, cultiva-se o romantismo, cultiva-se tudo o que é pedido e aconselhado pelos sabedores e doutorados em amor. Porque há um manual para amar. Eu não sabia, ate porque nunca o cumpri, ignorei tantas vezes esses sabedores, porque acredito e defendo que o amor não tem um manual, o amor é intuitivo e complicado, não é linear- "se gostasse de ti, não fazia isto"... ah pois então, claro, os sabedores defendem um padrão perfeito. Só que não sabem patavina de superar obstáculos, mudanças de personalidade, mudanças de contextos de vida, mudanças, mudanças, mudanças... e sendo clichê - meus filhos, se a vida não é perfeita como vai o amor sê-lo?, ah e tal o amor é o que nos faz feliz e nos faz acreditar na vida. Vá, agora vamos ser crescidos e perceber que a Disney é ficção ok? - ah, então se o amor não é perfeito na idade adulta eu não quero crescer. - já disse que a Disney é ficção, deixem se lá de Peterpanzices e frases de facebook.

Eu sinto que o meu amor é uma arritmia à espera do último suspiro, questiono-me quando vai parar de vez e que nenhuma recomendação o faça voltar a viver. Será este o ultimo suspiro? Porque sou racional e sei que não vai ser para sempre. Sei-o, sei-o tão bem no meu intimo. Sei que já foi reanimado pelo menos duas vezes, deixou lesões como deixaria num coração normal. Não percebo nada de anatomia, de cardiologia. Percebo de perdão, não conheço nem me ensinaram sobre os meus limites de amar e perdoar, sei de cor o que é a abnegação do que sou ou queria ser para amar incondicionalmente. E não queria ter que aprender a viver um amor moribundo. Não quero reanimar mais nada, e seguindo o meu coração, sei pela minha cabeça que depois de tanta reanimação vamos amar em arritmia. Se estiver enganada, tenho que ressalvar que foi o amor mais puro de que há memória, e que valeu cada reanimação. E que, vivendo em arritmia (por enquanto) não sei se o batimento ficará estável e quem esteja em arritmia seja o meu cérebro cansado de pensar. Mas, não percebendo nada, nem sendo doutorada em amor, sei que o amor é a analogia perfeita do coração. Toda gente o sabe

domingo, 29 de outubro de 2017

Música, Poesia e Palavras

Vou procurar por ti. A cada recanto. Em qualquer ruela, passeio ou sombra. Vou procurar as tuas palavras, a tua paz e o teu olhar vago e ao mesmo tempo atento. Talvez nunca mais te veja... e isso deixa-me incansavelmente agitada. Triste até. Nunca é demasiado definitivo. Vou esperar que o meu olhar alcance o teu e te desconforte. Vou procurar que a tua paz seja a minha, que a tua poesia me acalme a ansiedade mais angustiante, que a tua música seja um ombro onde me possa acomodar. As tuas palavras sempre certas fazem-me falta. Dou por mim a tentar lembrar, como um mantra que sigo, para não me esquecer que posso ser louca. Sim, não me posso esquecer que posso ser louca, ser genuína, confusa e gostar de mim. Por isso, vou-te procurar. Ou esperar, que deixando de te procurar, tu me encontres em qualquer ruela, passeio ou sombra.
Porquê que alguém que me poderia transmitir paz, me deixa inquieta quando a nossa distância é tão grande quanto a tua capacidade de dizer as palavras certas? Fará sentido procurar o que já não sei se existe? Não sei. Sei que te vou procurar. E, se na loucura não te encontrar, que encontre a minha paz e que nunca me esqueça das "palavras sempre certas". Se encontrar e não me transmitires paz, que seja uma procura que me leve ao encontro de mim. Até à resposta, ao encontro ou desencontro, vou seguir a minha saudável loucura e lembrar-te que o Porto também és tu!
Que um dia, eu tenha a resposta para tudo isto. Entre encontros e desencontros, tenhas sempre música, poesia e palavras - afinal, não é tudo a mesma coisa?