quarta-feira, 19 de junho de 2013

Carta à cacatua da Era passada

Olá Cacatua
Há quanto tempo não nos encontramos... Tenho saudades tuas sabes? Ás vezes dou por mim a pensar o quanto eras livre, não havia nada que te prendesse, respostas sempre na ponta da língua sem qualquer tipo de avaliação da situação. Dizias e estava dito. Tenho saudades de quando eras independente de todas as aves e seres que estavam junto a ti. Voavas em bando, mas voavas num caminho só teu, que só tu sabias para onde te levava. Sabias para onde querias ir. Tinhas os teus próprios sonhos e desejos bem delineados.  Nada te prendia, nada te impedia de voar. Não eras muito de arriscar nem de quebrar regras como os outros. Porque tudo o que querias não quebrava qualquer convenção, não era um teste aos limites, eram apenas sonhos de quem voa. Diziam que eras uma idealista. E eu gostava quando eras assim. Lunática talvez, com gostos por vezes tão diferentes mas tão iguais. Lembraste quando te perguntaram qual era a tua essência? Tu pensaste, pensaste e chegaste à conclusão que a tua essência era não lutares para ser diferente, era seres igual e aceitares. O que tu não sabias é que pelos céus que voaste eras tão diferente. Confundias-te com o tom alaranjado do céu no pôr-do-sol, tal era a tua cor. A tua cor era  forte tal como tu, viva como a tua vontade de voar. Todos temos uma cor de acordo com os nossos desejos, personalidade e vontades. A tua era intensa, tinha carácter e marcava presença. Mesmo no meio da tua timidez. Ás vezes o céu ficava enublado, mas tu não perdias a cor. Tu não! Sabias que por mais mudanças que existissem, nuvens ou tempestades tu ias saber lidar com isso, porque tinhas os teus sonhos. Vivos e intensos. Eras tu e um céu imenso à tua frente. Sabias e reconhecias a importância do teu bando, mas não mostravas muito, sentias com paixão mas não querias que soubessem. Era como se não te quisesses prender a ninguém. Sabias no fundo que mostrar sentimentos quebrava uma barreira, podiam te conhecer melhor. Conhecer as tuas virtudes e defeitos. Mas tu só querias parecer forte.
Entretanto de mansinho, no meio duma viagem com o bando mostraram-te como mostrar sentimentos ou dares mais de ti não era deixares de ser forte, mas contares com a força de alguém. Como se as cores dos outros fossem também tuas, e o teu laranja forte deles. O que não te disseram foi que isso te ia tornar mais vulnerável, porque o sofrimento dos outros ia ser teu também. Mas as cores estavam repartidas, não havia nada a fazer a não ser contemplar o arco-íris que se ia formando.
Reconstruiste os teus sonhos, eras boa nisso. Adaptaste-te ás cores que recebeste e aprendeste mais sobre o voar em bando. Percebeste que estavas mais vulnerável, mas que o que era a tua fraqueza podia ser onde ias buscar toda a inspiração para sonhar e a vontade de voar. A tua fraqueza era também a tua maior força.
Agora que penso, tornaste-te mais vulnerável ou mais forte? Se calhar não tenho saudades tuas... se calhar não vi que és a mesma cheia de vontade de viver e voar, não reparei que o laranja continua aí forte e intenso. Se calhar ando distraída com o facto de não te terem dito que podias te tornar mais vulnerável e não percebi que afinal só ficaste com mais cor, com outras cores também! Ando ocupada a observar as pegadas que deixei, que acho que não reparei no imenso céu que ainda tens para percorrer. Oh Cacatua, afinal ainda aí estás. Desculpa, mas afinal não tenho reparado em ti. E não tenho saudades tuas. Mas prometo que vou reparar melhor nas tuas cores sim? Vá, agora vai lá voar que eu vou contemplar o arco-íris. O nosso arco-íris!

Mil bicadas*
Cacatua

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Cacatuquem praí :)