segunda-feira, 15 de julho de 2013

Carta à pessoa que gostava de ter conhecido



Olá Sr. J.

Sei que não me conhece pessoalmente. Não fomos apresentados formalmente, como manda a tradição. Com muita pena minha. Mas tenho para mim que já ouvimos falar um do outro e por isso conhecemos algumas características um do outro. Gostava de poder confirmar aquilo que me dizem. Ver se as suas mãos eram realmente como me descreveram, se o seu sorriso corresponde ao que me contam, se era tão preocupado como contam. Gostava de me ter sentado consigo à mesa e ouvir histórias do "nosso amigo" e suas traquinices e a irmã dele, gostava de ter tido a oportunidade de ouvir os conhecimentos e aprendizagens como os que só um Homem de família com história e dedicação pura tem. Gostava tanto de o ter conhecido e poder ouvi-lo, poder perceber que o que me contam é verdade. Não que não confie, mas poder ver com os meus olhos e poder assistir à sua dedicação seria para mim um privilégio. Já é para mim um privilégio conhecer a sua família. Tenho a dizer-lhe que deixou um grande e valioso legado. Felicito-o por isso.
Quando me falam de si, tento imaginar como seria, tento assimilar todos os pormenores para eu própria construir uma opinião de si. Adoro observar as expressões das pessoas quando me falam de si, é um misto de alegria por ter acontecido e uma certa tristeza por não poder voltar a acontecer. Sorriem com lágrimas nos olhos. Mas sorriem mais. Sabe que deixou as pessoas mais cheias e melhores com as boas memórias que lhes proporcionou? Pois, acho que sabe. Daí consegue ver. Consegue ver o quanto são orgulhosos de si e o carinho com que falam. Não podia ser de outra maneira. Tenho de si a melhor imagem, a imagem de um verdadeiro avô, daqueles que se vê nos filmes, daqueles que eu nunca tive. Daquele que dão colo e contam histórias, que dão mimo e chapéus de chuva de chocolate e ensinam lenga-lengas aos netos. Sim, um verdadeiro avô.
Peço desculpa por ter falado algumas vezes no seu nome. Foi só uma forma de chamar o nosso amiguinho à atenção, ele que o tem como exemplo, o maior exemplo até. Foi ele que me falou mais de si. Foi a forma de o por a pensar como poderia não estar a orgulhar-se dele, dele pensar no legado que lhe deixou e a educação que lhe deu, bem como os valores que lhe transmitiu. Era só para o relembrar de onde veio e o que lhe foi ensinado e assim ponderar melhorar as suas atitudes. Sei que um dia se poderá lembrar, porque quero acreditar que tão valiosos valores não foram esquecidos nem serão ignorados. Conto consigo para isto.
Não sei o que lhe foram falando de mim. Talvez nos pudéssemos ter dado bem. No fundo, acho que ia gostar de mim. Mas por fim, quero lhe dizer que apesar dos meus erros, tentei fazer o meu melhor, tentei tratar toda gente da melhor maneira, com educação e tendo a humildade sempre presente. Tentei aprender com o que me contavam e escutar tudo atentamente. Fiz o meu melhor e continuarei a fazer. Se calhar vou conhecendo-o, porque a melhor maneira de o conhecer é ver a marca que deixou. E esta está mais que entranhada e mais que presente. Obrigada por isso. Obrigada por ter tornado as pessoas que se cruzaram no meu caminho, pessoas melhores e que me fizeram sentir feliz. E isso conseguiram, porque aprenderam com o melhor.
Conto consigo.
Cacatua



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Cacatuquem praí :)