terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Tristeza em ser Orgulhosamente Transmontano!

" A Nordeste de terras Lusas é possível encontrar uma das mais belas e encantadas regiões do nosso País: Trás-os-Montes, que melhor e tão descritivo nome, este solo sagrado não podia ter; por entre vales e serras, rios e ribeiros, florestas e touças, vilas e aldeias, esta terra esconde segredos e maravilhas… A gente, de olhar duro e rosto cansado, que de início pode ser mal-encarada e desconfiada, é forte e trabalhadora – o que se reflecte nos rostos queimados pelo Sol e nas mãos cheias de calos e bolhas – de uma astúcia e capacidades difíceis de rivalizar, de uma honestidade e transparência como no mundo não se encontra e de um amor pela tradição e pela terra que pisam que é capaz de, igualar o amor de uma mãe pelo filho. A terra é de uma riqueza inigualável! Das vinhas nos afluentes do Douro, à cereja da Terra Quente, passando pela castanha das frias serras, e as amarga amêndoa de Vila Flor, percorrendo o olival nos vale e chegando por fim aos figo, batata, centeio e aveia e tantos outros frutos secos, não esquecendo os verdejantes lameiros que tanto sustentam o gado que prima pela saúde e qualidade de seus produtos e carnes. Outrora foi assim, as serras que albergavam o temido lobo, o grande javali, a matreira raposa, o alegre cuco (e tantos outros que ficam por enumerar) e a astuta e dura gente, hoje são apenas desertos…a essência do nordeste transmontano encontra-se também em via de extinção. Esta essência, tudo aquilo que nos define, escoa-nos por entre as mãos, ou melhor, é-nos retirada brutamente; alguém nos rouba, digo eu! SIM! Roubam o pobremente rico e simples transmontano! Esses vigários, corruptos e ladrões tentam tomar aquilo que é nosso! Aquilo pelo qual tanto lutamos e tanto custou a erguer! Portugal nunca foi amigo daquilo e daqueles que são seus a Nordeste, e a crise já à muito que se encontra entre nós, no dia-a-dia, e não é só económica, é da gente também! O Desenvolvimento perdeu-se pelo Sul e tardiamente conseguiu passar o Marão e era Salazar que se encontrava no poleiro quando os caminhos-de-ferro floresceram e cresceram, originando, assim, a Linha do Tua, quando as escolas primárias surgiram nas pequenas localidades (tornando a educação não algo único e exclusivo dos ricos mas algo acessível, ainda que com dificuldade, aos filhos dos pobres) e quando umas poucas candeias se começaram a apagar, com a chegada da luz eléctrica. Contudo ainda o galo do poleiro findava de cantar e já o Transmontano estava a perder aquilo que tão dificilmente havia chegado. Hoje já não temos Linha do Tua! Desactivada e irrecuperável em certas áreas, submersas pela construção de barragens naquela bacia hidrográfica. E parece que mais querem construir, tanto no Tua como no Sabor…e para quê? Criar postos de trabalho? Trazer riquezas e benefício à população? Ou é tudo para perder campos agrícolas, paisagens magníficas e esplendorosas e em troca receber todos os meses uma factura da electricidade bastante mais taxada e cara? Encerram escolas, e os edifícios tão alusivos ao regime e à rigidez de outros tempos caem e degradam-se tornando-se cinzentos, sem crianças a correr e lições a ser ensinadas. Assim se perde o património do Estado e dos Municípios, e pior, assim se perdem memórias de
gerações. Os espaços recreativos e jovens são cada vez mais miragens, e aqueles que são mais que ilusões depressa se perdem. Até o cinema em Bragança nos conseguiram tirar…. A Fé? Perde-se pela falta de párocos e religiosos e, não corre pela rua da amargura porque, se há coisa que o transmontano sempre foi, é crente. Mesmo quando parecem estender-nos uma mão cheia, é para nos roubar, mais um bocadinho. Falo pois da A4, proposta pelo anterior governo: “Promoverá o crescimento económico”, “Espanha ficará assim, mais perto” diziam eles. E muito transmontanos juntavam vozes a estes que com tão deliciosa melodia nos aliciavam. Pois eu bem ia no “canto” do vigário senão tivessem eliminado ou diminuído todas as outras alternativas à auto-estrada, como era o IP4 e as estradas nacionais; se não quisessem portajar quase toda a extensão Vila Real-Bragança. Tudo para, pagar o tão grandioso projecto, feito à custa da falência de pequenas e médias empresas e, encher barrigas já de si fartas! Até as pessoas roubaram a esta terra a esta terra! Quantos transmontanos não abandonaram as suas casas e se aventuraram (e aventuram) no resto do país e do mundo? Quantos jovens pensam, hoje, em construir a sua vida na terra que os viu nascer? Tantos foram e são que actualmente se percorrem povoações inteiras sem ver uma alma, quando noutros tempos essas mesmas localidades se encontravam sobrepopuladas…. À falta de pior, até a dignidade nos tentam tirar…a comunicação social retracta a região transmontana como algum local muito pobre para se passar umas férias rurais, já que falta dinheiro para ir às Caraíbas ou outros destinos paradisíacos. Esforça-se por mostrar o velhinho a passear o burrinho, o menino da aldeia a alimentar os animais ou o pastor, que infelizmente não pôde estudar mais, a falar. Lembram-se de nós e do nosso recanto quando neva, e tudo porque o sulista não tem o privilégio de ter neve também. Secalhar, qualquer dia, também isso nos roubam. E interrogo-me: “Quando e como é que divulgam aquilo que de melhor à em Trás-os-Montes? Quando é que vão conseguir captar a verdadeira essência?”… E assim definha uma região: perde-se a gente, a cultura, os hábitos, as riquezas, o comércio, os serviços, as pequenas localidades, o património, a fauna e flora, a tradição e a juventude…. É com mágoa que se vê uma bela terra ficar à imagem da maioria da sua população, velha, enrugada, renegada, fraca, doente, deprimida e sem memória…onde está a essência transmontana? Aliás, alguém me pode dizer onde fica Trás-os-Montes? A tristeza de um orgulhoso transmontano, Tiago Rodrigues"

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