sábado, 14 de setembro de 2013

Passeando pela cidade

Ultimamente nos passeios que faço, mesmo muitas das vezes sendo curtos, reparo cada vez em coisas mais tristes. E não, não ando numa fase pessimista em que sobressai o que de mau existe. Mas, há situações que estão a tornar-se cada vez mais comuns, a pobreza e por consequência os pedintes na rua. Não é novidade para ninguém, são temas caros a toda gente. A crise, falta de verbas para isto e para aquilo, cortes aqui e acolá, défice, taxas de juro, desemprego. Palavras chave do dia-a-dia dum cidadão que bata com os olhos num jornal. Até as crianças começam a ter noção disto e até já se fala na ansiedade que esta conjuntura económica possa provocar numa criança afectando o seu desenvolvimento normal.
Reparei em duas situações que me marcaram muito, que me deixaram a pensar e a reflectir na sociedade que vivemos. Não se trata só de economia, nem de falta de dinheiro. Trata-se de falta de civismo, sensibilidade. Um individualismo que me assusta. A veia humana de muita gente perdeu-se algures no meio da ambição e egoísmo. Valores trocados, portanto. Pessoas que ignoram, criticam, respondem de modo arrogante e quase rosnam quais cães raivosos em cativeiro.
A primeira situação que vi, foi uma senhora paraplégica que se encontrava a pedir numa rua bastante movimentada. Na cara da senhora vi sofrimento e nas lágrimas que lhe caíam desespero, as mãos seguravam a cabeça e conversava com uma senhora mas sem lhe olhar nos olhos. Saí dali a pensar o que lhe terá acontecido, onde estava a família e a restante rede de apoio, porque chorava tanto ela, teria fome, como iria ela arranjar emprego, teria filhos... a minha cabeça não parou. Entretanto voltei a passar por lá com uma amiga e já lhe tinha contado o que tinha visto e quando voltamos a ver a senhora ficamos uns momentos em silêncio, absorvidas em pensamentos que se traduziam em questões com e sem lógica. Atenção, mencionei que era paraplégica não por uma questão de descriminação positiva, mas porque imagino que para uma pessoa com todas as capacidades arranjar emprego é difícil, imagino para alguém que tem alguma limitação. Não é pena, é constatar um facto.
Outra situação foi precisamente ontem, passeava eu com a minha sobrinha, era só eu e ela no meio de tanta gente e duma cidade movimentada. Eu fazia palhaçadas e expressões estranhas, ela ria-se, dava aqueles gritinhos de euforia e gaguejava. De repente, reparo num senhor, apático, com barba por fazer, olhar triste, deambulando pelas ruas, face cheia de pequenas feridas, pontos de sangue seco por toda a cara, aspecto descuidado e mal vestido. E ouço: "aquilo é um antro de doenças". Possivelmente era verdade que o senhor estava infectado com alguma doença. Mas, aquilo não é um objecto, não é uma sanita infectada duma casa de banho pública, aquilo é aquela pessoa. É uma pessoa, tem uma história caramba. Seja ela qual for. Se me meteu impressão? Sim, mas só consegui pensar que provavelmente aquele senhor tinha uma história triste, provavelmente não iria viver muito tempo e encontrava-se por ali sozinho.
Estas histórias fizeram-me lembrar uma aula que eu tive no segundo ano da faculdade da disciplina denominada Dinâmicas de grupo(grande disciplina) onde tínhamos que partilhar uma frase, expressão, música, filme que tivesse um significado para nós, alguém falou numa frase que a ideia geral era "alcatifar o nosso mundo" da forma que conseguirmos, para quem caminha descalço. E, só consigo pensar que posso fazer mais, que tenho que fazer mais, que não faço nada por estas pessoas. Mas não sei por onde começar, mas vou descobrir...

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